• Renato Barjona Miranda De Miranda

Afinal, devemos extrair os sisos?


Reunião dos órgãos não essenciais (siso, amígdala, apêndice, vesícula biliar) Imagem adaptada: http://theawkwardyeti.com

Para que eles existem? Aparecem tão tarde que já não fazem falta. Quando aparecem. Às vezes, se escondem de forma intrincada, aparecendo apenas em radiografias de surpresa. Não à toa Darwin separou um capítulo para discuti-los em “A Origem das Espécies” e os evolucionistas os referem como vestígio evolutivo devido nossa mudança de dieta, como o caso do apêndice. Mas afinal, devemos removê-los?



Extração profilática?


A evidência científica que apoia a remoção profilática rotineira dos terceiros molares, os sisos, é surpreendentemente escassa e, em alguns países, a prática foi abandonada. O Instituto Nacional de Excelência Clínica (NICE), do Reino Unido, introduziu uma orientação sobre a extração dos terceiros molares em 2000. Esta diretriz recomendou que a prática de remoção profilática de terceiros molares, livres de patologias, fosse descontinuada e sugeria indicações para extração cirúrgica da seguinte forma: pericoronarite recorrente, celulite, abscesso, osteomielite, doença dos folículos, incluindo cistos e tumores, cáries não restauráveis, patologia pulpar e / ou patologia periapical intratável, reabsorção interna / externa dos dentes adjacentes, fratura dentária, cirurgia reconstrutiva de mandíbula e dente envolvido ou dentro do campo de ressecção de tumor.

Entretanto, a Associação Americana de Cirurgiões Buco Maxilo Faciais afirma que se não houver espaço anatômico suficiente para acomodar a erupção normal, a remoção desses dentes em idade precoce é uma justificativa de tratamento válida e cientificamente fundamentada, baseada na necessidade médica e prevenção de uma cirurgia mais complicada com o paciente em idade mais avançada. Afirma ainda que cerca de 85% dos terceiros molares precisarão eventualmente serem removidos. Um estudo que avaliou os resultados das orientações da NICE em 2012 parece corroborar com esta afirmação concluindo que mais pacientes no Reino Unido estão exigindo a remoção do terceiro molar devido cárie relacionada a eles. Os pacientes são, em média, agora, mais velhos, o que põe em dúvida o sucesso das diretrizes NICE. O estudo conclui que a extração dos terceiros molares deve ser baseada em uma estimativa do equilíbrio entre os riscos e vantagens.


"Todo mundo está em risco de apendicite. Você tira o apêndice de todos?", questiona o Dr. Greg J. Huang, coordenador da Universidade de Washington, em Seattle em uma entrevista à The New York Times, em 2011.



E eu? Preciso remover?


Eu preciso remover, doutor?


Não é necessário remover seus os terceiros molares se eles estiverem posicionados corretamente na boca, em oclusão, e não causarem dor ou problemas dentários adjacentes, nem apresentar nenhuma patologia. Cuidado deve ser tomado com higienização cuidadosa devido sua localização. Visitas ao dentista para prevenção de doenças como a cárie e a doença periodontal devem ser regulares. Em caso de dificuldades para higienização doméstica, a extração deve ser considerada.


Existem indicações ortodônticas para ampliação do espaço para melhorar o alinhamento dentário com o tratamento do aparelho. Nesse caso, o ortodontista poderá orientar a extração.


No caso de candidatos a Cirurgia Ortognática a extração dos terceiros molares deverá ser realizada previamente devido à proximidade de sua localização com as linhas de osteotomia.


Praticantes de esportes de contato como Rugby e MMA poderão ter extrações de terceiros molares mandibulares inclusos indicadas para prevenção de fratura do ângulo mandibular.


Praticantes de regatas ao redor do mundo também devem extrair terceiros molares na prevenção de problemas em alto mar. A apendicectomia (remoção do apêndice) também pode ser indicada neste caso.


Terceiros molares inclusos em região em que uma prótese removível será instalada requerem 1 a 2 mm de osso entre o dente e a prótese para evitar irritação, exposição do dente para a cavidade oral e subsequente infecção, por isso deverão ser extraídos.


Pericoronarite recorrente, celulite, abscesso, osteomielite, doença dos folículos, incluindo cistos e tumores, cáries não restauráveis, patologia pulpar e / ou patologia periapical intratável, reabsorção interna / externa dos dentes adjacentes, fratura dentária, cirurgia reconstrutiva de mandíbula e dente envolvido ou dentro do campo de ressecção de tumor são todas indicações para extração dos terceiros molares.


A chance de ocorrência de cisto, apesar de rara, não deve ser negligenciada, e deve ser considerada na hora da decisão entre extração ou manutenção do terceiro molar.


Conclusão


Os dados atuais não são suficientes para refutar ou apoiar remoção profilática de terceiros molares em pacientes livres de patologia versus a manutenção e vigilância ativa. O acompanhamento e a reavaliação em intervalos regulares são recomendados em vez de se esperar o aparecimento de sintomas. A extração dos terceiros molares deve ser baseada em uma estimativa do equilíbrio entre os riscos e vantagens.


Referências:


01: Anthony K Campbell; Darwin and Human Evolution: Origin of Species Revisited, Biological Journal of the Linnean Society, Volume 116, Issue 2, 1 October 2015, Pages 486

02: Chapman PJ. Orofacial injuries and international rugby players' attitudes to mouthguards. Br J Sports Med. 1990;24(3):156-8.

03: De Mello, AMH. Diário de Bordo: as aventuras do primeiro velejador brasileiro a dar a volta ao mundo em solitário, sem escalas, pelo oceano austral – São Paulo: Clio Editora, 2004.

04: Friedman JW. The prophylactic extraction of third molars: a public health hazard. Am J Public Health. 2007;97(9):1554-9.

05: Jung YH, Cho BH. Prevalence of missing and impacted third molars in adults aged 25 years and above. Imaging Sci Dent. 2013;43(4):219-25.

06: L. W. McArdle, T. Renton. The effects of NICE guidelines on the management of third molar teeth; British Dental Journal, Springer Nature, Sep 7, 2012

07: Meisami, T & Sojat, A & Sándor, George & P Lawrence, H & M L Clokie, C. (2002). Impacted third molars and risk of angle fracture. International journal of oral and maxillofacial surgery. 31. 140-4. 10.1054/ijom.2001.0215.

08: Romanes, GJ. Darwin and after Darwin : An exposition of the Darwinian theory and a discussion of post-Darwinian questions; Chicago :The Open Court Publishing Company,1892-97

09: Steed, MB. The indications for third-molar extractions, JADA 2014;145(6):570-573.

https://www.nytimes.com/2011/09/06/health/06consumer.html


Imagens adaptadas de: http://theawkwardyeti.com/ e http://www.istock.com

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