• Renato Barjona Miranda De Miranda

Xerostomia: entenda a boca seca


Rachaduras linguais lembram solo árido.

Você certamente já experimentou a sensação de boca seca. Seja após um longo exercício, ou longa caminhada em dias de calor; após uma noite de confraternização da empresa, na manhã seguinte em que você acordou com alguma ressaca; ou mesmo antes de uma reunião, apresentação ou encontro importante. À essa sensação de boca seca damos o nome xerostomia e é sobre ela que vamos falar.


O que é xerostomia?

A xerostomia é uma sensação subjetiva de secura da boca que pode ser ou não devido uma diminuição da produção de saliva (hipossalivação) ou por mudança em sua constituição, sendo esta sensação mais relatada por idosos, menos por um fator etário e mais pelo maior uso de medicamentos. Estima-se que na população acima de 60 anos exista uma prevalência de 30% de sintoma de xerostomia devido uso de tais medicamentos.


O que causa?


Dentre as medicações associadas à xerostomia estão anti-depressivos tricíclicos (amitriptilina), inibidores seletivos da serotonina (fluoxetina, lítio) anti-hipertensivos (tirosina,clonidina,propranolol), retinoides (derivados da vitamina A), opióides, anti-histaminicos, diuréticos, benzodiazepínicos e agentes anti-refluxo (antiácidos). O álcool e o tabagismo (tabaco e canabis) também são fortemente associados à sensação de xerostomia, bem como bebidas diuréticas como café e algumas espécies de chá.

Outras causas iatrogênicas de longa duração importantes são a quimioterapia e a radioterapia local em cabeça e pescoço.


O ciclo circadiano salivar tem seu ápice durante o dia e seu menor índice durante a noite (xerostomia noturna) que é agravada em casos de respiração bucal.


Doenças relacionadas



Fontes: Hospital Israelita A. Einstein

O profissional deve ficar atento às condições sistêmicas que podem se pronunciar através da hipossalivaçao e sensação de xerostomia. Dentre elas a mais comum é a Síndrome de Sjogren que afeta principalmente glândulas salivares e lacrimais, gerando xerostomia e xeroftalmia (olhos secos), podendo envolver outras glândulas exócrinas como pâncreas, glândulas sudoríparas, do trato respiratório, gastrointestinal e uro-genital.

Diabetes, sarcoidose, fibrose cística, infecções pelo HIV, hepatite, também podem alterar o fluxo salivar na cavidade bucal e afetar glândulas salivares.


Complicações bucais


As principais queixas dos pacientes com xerostomia são a halitose (mau hálito), alteração ou perda de paladar, dificuldades de deglutição, sensibilidade e ardência bucal (síndrome da ardência bucal), rachaduras labiais e bucais, rachaduras linguais, acúmulo de alimentos na cavidade bucal e dorso de língua e intolerância à alimentos ácidos. Nos casos de usuários de prótese removível existe uma dificuldade de controle dessa prótese.

É muito comum o aparecimento de cáries em superfícies dentais lisas como nos incisivos inferiores, cárie radicular, mucosite, candidíase, eritema de mucosa (mucosa avermelhada), e sialoadenite ascendente supurativa (dor e aumento das glândulas salivares e secreção purulenta pelo ducto da glândula).


O que fazer?


A boca seca deve ser hidratada tanto quanto possível

A boca seca deve ser hidratada tão regularmente quanto possível. É importante que o paciente ande sempre com uma garrafa de água para se hidratar.

Os lábios podem se tornar secos e atróficos, suscetíveis a rachaduras, logo é importante que se utilize lubrificante como vaselina ou a base de cacau.

Esforços devem ser feitos para reduzir ressecamento bucal como evitar ambientes secos e quentes, alimentos secos, diminuir a ingestão de álcool, evitar fumar e ingerir bebidas que induzam diurese como café e alguns tipos de chá.

Uso de goma de mascar e doces dietéticos como estimulantes.

Uso de substitutos de saliva (ex: BioXtra) está indicado em alguns casos.

Medicações colinérgicas (Pilocarpina) devem ser orientadas pelo cirurgião.

As complicações bucais como cáries devem ser prevenidas e tratadas, portando o paciente deve ter uma dieta pobre em açúcar, utilizar creme dental com flúor, realizar bochechos fluoretados e utilizar moldeira com gel fluoretado em consultório ou em casa. Lesões de cárie ativa devem ser restauradas com ionômero de vidro pela liberação de flúor.

Laser de baixa frequência combate os sintomas e a mucosite em pacientes irradiados.

A candidíase deve ser tratadas de maneira específica com clorexidina e antifúngicos

A sialoadenite deve ser tratada com antibióticos.


Quais exames fazer?


O diagnóstico da xerostomia é estritamente clínico com base na anamnese. Alguns exames podem ser realizados para exclusão de outras comorbidades:


Sialometria (Teste do Fluxo Salivar) – é um indicador inespecífico de disfunção de glândulas salivares, porém é um exame simples e barato feito em consultório com o paciente em jejum, sendo o valor de referência normal acima de 0,25ml/min sem estímulantes, e acima de 1,00ml/min com estimulantes (ácido cítrico 10%). Valores inferiores indicam hipossalivação.


Sialografia – Útil quando existe suspeita de obstrução, é realizada através de introdução de contraste radiopaco, geralmente de iodo, no ducto e está relacionado há casos de infecção.


Cintilografia salivar – analisa as glândulas maiores de maneira não invasiva, mas está associada a índices de radiação e é um exame caro.


Análise urina e glicemia – para excluir diabetes


Velocidade de Hemossedimentação (VHS) – inespecífico para tentar excluir Síndrome de Sjogren e a sarcoidose


Anti RO/SSA e Anti RO/SSB – para excluir a Síndrome de Sjogren e a sarcoidose


Fator Reumatóide (FR) – para excluir a Síndrome de Sjogren


Enzima conversora da angiotensina sérica (ECA) – para excluir a sarcoidose


Sorologia – para excluir causas virais


Exames adicionais


Radiografia de tórax – para excluir a sarcoidose


Ultrassonografia – para excluir a Síndrome de Sjogren e neoplasias


Ressonância Magnética – para Síndrome de Sjogren


É preciso biopsiar? Quando e onde?


Quando existir suspeita de doenças sistêmicas interferindo na função das glândulas salivares (como a Síndrome de Sjogren), uma biopsia em glândula salivar menor deve ser usualmente realizada. Apesar de possível, deve-se evitar biopsias da parótida e outras glândulas maiores devido ao risco de dano ao nervo, ocorrência de fístula na glândula e cicatriz pelo acesso extra oral. A mucosa do lábio inferior representa uma área de fácil acesso e ótima recuperação.


REFERENCIAS

Andrades, KMR et al, PREVALÊNCIA DA XEROSTOMIA EM PACIENTES ATENDIDOS NA ÁREA DE ODONTOLOGIA DA UNIVILLE, RSBO v. 4, n. 2, 2007

Dantas, PEC, Felberg, S, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA SÍNDROME DE SJOGREN

Luz MAC, Birman EG. CÁRIE EM PACIENTES COM HIPOSSALIVAÇÃO: ASPECTOS CLÍNICOS, TERAPÊUTICOS E PREVENTIVOS. Rev FO-USP. 1996 nov/dez;4(6)

Versteeg PA, van der Weijden GA., Effect of cannabis usage on the oral environment: a review. Int, J Dent Hyg, 2008 Nov;6(4):315-20

Sreebny LM, Schwartz SS. REFERENCE GUIDE TO DRUGS AND DRY MOUTH Oral Surg. 1996;5(2):75-99

Zangaro,RA et al, PREVENÇÃO DA XEROSTOMIA E DA MUCOSITE ORAL INDUZIDAS POR RADIOTERAPIA COM USO DE LASER DE BAIXA POTÊNCIA, Radiol Bras 2006;39(2):131-136

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